"Por tão pouco? Ele nem te bateu de verdade"
Anônima

25 de novembro de 2013

 

Não pude conter as lágrimas ao ver as fotos ligadas às frases, algumas ligadas ao que vivi, mesmo após um ano da tentativa de agressão e alguns cuspes no rosto... Fui culpada por tudo, tive que conviver com o agressor, que se vitimiza até hoje, com julgamentos, perseguição, tive que me mudar, tive que mudar a vida e alguns ainda perguntam: "Mas por tão pouco...? Ele nem te bateu de verdade". 

Fiquei sem autoestima, sem amor próprio, vegetei nesses meses subsequentes... Perdi o emprego, perdi "amigos", deixei de frequentar lugares... Esse projeto colocou à tona algumas coisas que gostaria de esquecer mas, em compensação, deixou mais claro ainda como fui forte em sair disso antes que algo pior acontecesse.

Queria apenas desejar força ao projeto, e agradecer por ter algo ligado à conscientização sobre isso. No que puder ajudar, podem contar com mais uma ajuda! 

 

 

"Ninguém mais vai te querer, só eu te quero"
Amanda  (nome fictício)

25 de novembro de 2013

 

Quando falamos de violência à mulher logo pensamos: do homem contra a mulher. Com 15 anos me apaixonei e comecei a namorar uma menina da minha idade. Mesmo sendo de realidades próximas, ela já usava drogas quando nos conhecemos. Isso fazia com que ela ficasse uma pessoa mais agressiva e sem limites com todo mundo. Traições nem se contam quantas foram. E toda vez que eu ameaçava largar dela, ouvia de tudo, mas principalmente "ninguém mais vai te querer, só eu te quero". Eu era muito nova e inocente quando começamos a namorar, não tinha outras experiências de "amor", então acreditava nela. Além disso já tinha sofrido violência doméstica em casa.

Um dia, quando ela estava muito louca do pó, fiquei sabendo que ela tinha batido em uma amiga, me assustei mas deixei de lado, pois ela sempre me dizia que ia parar. Nossas brigas estavam ficando cada vez mais tensas, eu ia perdendo meu amor próprio e acreditando que só ela me amaria no mundo e na vida.

Depois de dois anos e meio juntas, e no meio de muitos conflitos, achei que as coisas só tendiam a melhorar. Até que um dia eu fui acordar ela, ela estava de ressaca e ainda meio bêbada, e eu fiquei "incomodando" ela para sairmos, pois o dia estava lindo. Ela me disse que se eu não parasse de incomodar eu "ia ver só", mas né, quem levaria essa ameaça a sério? Foi eu falar mais alguma coisa que ela avançou em mim e começou a me bater. Minha sorte é que tinham mais pessoas com a gente, que seguraram ela e me protegeram, mas isso não foi a tempo de evitar que eu ficasse com um hematoma em todo o braço. Fiquei bem chateada com a cena, mas eu já esperava uma coisa dessas. Quando contei para os meus amigos eles disseram "mas também, tu mereceu", e foi assim que me senti por muito tempo, tendo merecido apanhar. Minha sorte foi que minha mãe descobriu e me pressionou para acabar com aquilo.

Terminamos algumas semanas depois, mas isso não foi o fim. Por cerca de um ano e meio ela me perseguiu. Se mudou para a rua de trás da minha, e eu morria de medo de que ela ficasse me esperando sair de casa - por sorte nunca aconteceu. Mas recebia inúmeros e-mails, ligações de números desconhecidos, mesmo eu pedindo para que ela parasse, ela não parava.

Ela começou a namorar outra menina, e as coisas se acalmaram por um tempo, mas quando elas se separaram ela voltou a me procurar. Começou a me ligar todos os horários do dia, fazendo ameaças, dizendo que eu não era realmente feliz sem ela, e mesmo eu implorando para ela parar, ela me dizia "nunca vou parar, até tu voltar pra mim". Então eu tive que me impor, consegui fazer com ela ela parasse com as ameças, mas até hoje tremo quando penso que posso encontrar ela em algum lugar, e volta e meia ela me manda e-mails querendo me ver e reatar...

"Agressão psicológica também causa cicatrizes"
Anônima

25 de novembro de 2013

 

Esse site me chamou a atenção, não que eu sofra agressões físicas, talvez as psicológicas rsrs, as psicológicas não causam cicatrizes no rosto ou no corpo, mas causam marcas físicas da cicatriz que fica no coração e na mente como doenças, depressão, abandono... qualquer tipo de agressão causa marcas tão profundas que não sei se tem reversão. Nem uma delas é pior que a outra, as duas tem o mesmo peso: mas o duro da psicológica é conseguir provar pra si mesma que você sofre e de se manter sã, de não se deixar enlouquecer.

Estou esperando ele mudar há 7 anos, há 7 anos tento levantar a minha cabeça. Sinto que está ficando cada vez mais difícil, mas tenho esperança de que um dia saio do fundo do poço que está tampado com uma tampa de concreto e cheio de correntes - é assim que me sinto.

Tudo isso é pra lembrar de que vocês tem que de alguma forma retratar esse tipo de violência que não é diretamente física mas que também causam marcas profundas. O que eu puder contribuir estarei aqui e o que vocês puderem me ajudar agradeço. Obs.: sei que acima coloquei "rsrs" em uma coisa que não tem graça, mas as únicas coisas que me mantém são meus dois filhos e meu bom humor que, por Deus, não sei como não me abandona. Obrigada pelo espaço de desabafo.

"Não admite ser contrariado"
Anônima

25 de novembro de 2013

 

Certa vez apanhei do meu irmão em uma discussão ocorrida em casa. Quando ele começou a me bater eu estava saindo de casa para me livrar da discussão, e a porta do apartamento ficou aberta. Além de me agredir muito com tapas e socos no rosto, ele queria me jogar da sacada. Estávamos no primeiro andar e ele só não o fez porque minha mãe se meteu no meio, quando então eu pude me livrar dele e fugir, saindo pela porta e descendo as escadas em carreira.

Não era a primeira vez que isso acontecia: além de ter me agredido mais de uma vez com tapas no rosto, ele já havia batido na ex mulher (chegou a quebrar o dedo indicador dela porque em uma discussão ela "apontou o dedo na cara" dele), e bateu também na filha em diversas situações. Ele é uma pessoa difícil, é explosivo e não admite ser contrariado.

Naquela noite, aos berros, ele me colocou para fora de casa com a roupa do corpo. Eu não tinha para onde ir e fiquei madrugada adentro dirigindo sem rumo e sem o mínimo de condição emocional até tomar coragem de pedir abrigo na casa de uma amiga. Estava com muito medo de parar o carro e ser assaltada... e também com muita vergonha de chegar na casa de uma pessoa com a roupa amassada, descabelada, com o rosto marcado e os olhos inchados de chorar. Fora que eu parava de chorar e logo voltava em um choro compulsivo. Mandei uma mensagem a um ex-namorado a quem ainda considerava amigo. No outro dia ele respondeu: disse que se eu apanhei eu é que deveria rever meu comportamento. Achei aquilo tão humilhante quanto a violência física.

Depois que meu irmão me bateu, mesmo pedindo desculpas depois, nossa relação nunca mais foi a mesma... e após essa resposta nunca mais falei com esse ex. Incrível como o machismo torna a vítima a grande causadora da violência sofrida. Não quero passar por isso nunca mais na minha vida.

"Queria encontrar alguém que não bebesse e não fosse violento"
Anônima

25 de novembro de 2013

 

Sempre desejei não passar o que vi aminha mãe passar. Queria encontrar alguém que não bebesse e não fosse violento. Achei que tivesse encontrado. Casei aos 29 anos. Tive duas filhas.

A gente ia ao mercado e ele só se preocupava em colocar bebida no carrinho. Quantas brigas por conta disso. Todo domingo ele fazia questão de esvaziar uma garrafa sozinho de Montilla com coca cola. Quando voltávamos para casa, eu ia dormir pois não aguentava o cheiro dele. Ele falava para todo mundo que eu tinha outro, porque não queria nada com ele. Uma vez cheguei em casa e briguei com ele porque tinha elvado um amigo dele e os dois estavam alterados. Me bateu e me jogou com as costas no degrau da escada. Outra vez, seu time preferido estava jogando e ele tomando whisky. Briguei com ele porque estava gritando. Ele me pegou no andar de baixo do sobrado e me arrastou pelo cabelo até a cozinha. 

Eu não tinha coragem de me separar porque minhas filhas adoravam ele. Só que um dia, numa dessas brigas, ele chegou em casa "alto" e discuti novamente. Ele foi me batendo até que cai de costas no chão. Ele pegou minha cabeça e bateu no chão com toda força. Formou um enorme "galo". Passei mal a noite inteira. Fui ao Pronto Socorro. O resultado: labirintite.

Em 2006 me separei dele. Isso não é vida para mulher nenhuma que tem dignidade, sempre trabalhei e nunca fui sustentada por ele. Ninguém deve ter medo. Tome coragem antes que seja tarde.

"Dez anos de morte em vida"
Cristina

25 de novembro de 2013

 

Também passei por isso. Começou na lua de mel e formou-se uma rede onde o mundo fechou-se e fechei-me no meu mundo. Foram quase 10 anos de espera aguardando a oportunidade menos perigosa de tentar escapar. Foi difícil. Mas valeu a pena. Família, amigos, colegas de trabalho ou os próprios órgãos para isso definidos não estão realmente preparados para lidar com a violência contra a mulher. O resultado são muitas mortes acidentais, como quase aconteceu comigo. Mas foram dez anos de morte em vida. Alguns anos de terapia ajudaram a restagar o sorriso, mas ainda falta muito para acreditar em felicidade e confiar em alguém. Lindo o projeto, pois as vozes que não se calaram, ajudam quem está só a perceber que pode haver luz no fim do túnel mas que deve-se e pode-se sair deste longo e escuro túnel.

"Quem mandou ficar com o cara se não queria transar?"
Fernanda

25 de novembro de 2013

 

Há três anos eu apanhei de um cara com quem estava ficando, por não querer transar com ele no meio de uma festa. A festa ocorria na casa da pessoa que até aquele momento tinha sido meu melhor amigo, e os convidados eram pessoas com quem eu tinha estudado a vida toda. Várias pessoas presenciaram, várias outras ouviram e muitas viram meu estado depois, e todos me culparam. Ouvi dos mais diversos comentários, desde "mas ele estava bêbado, desencana", "se ele tinha camisinha por que vc não quis?" ou "quem mandou ficar com o cara se não queria transar".

Virei piada entre muitas pessoas, já que além de ter me batido ele tentou me estuprar, e em dado momento arrancou toda a minha roupa. Fui zoada no twitter e no facebook, e por muito tempo encarei tudo com humor, já que achava que eles estavam certos, e a errada era eu. Não queria perder os "amigos" que fiz durante a vida toda.

Me levou um tempo pra entender que eles estavam errados, e que a culpa não era de fato minha. Cada dia é um dia, e projetos como esse me ajudam a restaurar um pouco de fé na humanidade. Muito obrigada, mesmo!

"Ele disse que eu precisava saber que havia um monstro dentro dele"
Anônima

5 de dezembro de 2013

 

A gente nunca acha que vai acontecer com a gente... até que acontece. A gente acha que aprende, que vai enxergar da próxima vez, que não vai cair na mesma cilada e encontrar o mesmo tipo de problema. Mas a gente é enganada. E, mais que isso, a gente se engana. Quando uma pessoa extremamente inteligente, de Q.I. muito além da média, bem sucedido e que vc conhece há mais de 20 anos, vai te fazer algum mal?! Quando? Quer mesmo saber quando?! A qualquer momento.

Reencontrei um amigo que conhecia há 20 anos. Conversamos um bom tempo pela internet antes de resolvermos nos encontrar. Saímos, então, e depois da primeira vez, muitas. Logo estávamos namorando, super oficializado. Confesso que achei tudo meio rápido. Mas resolvi achar que é assim mesmo, que, como adultos que já passaram por poucas e boas, sabemos o que queremos e o que estamos fazendo. Um amigo em comum, também de 20 anos, nos convidou para sair, mas a resposta do meu namorado foi: não, obrigado. E, a justificativa, para mim, é que não queria me dividir com ninguém. Não ainda. Soou estranho, mas comecei a achar que a problemática era eu, vendo - e sentindo - problema em tudo. Meu então namorado vinha de um relacionamento conturbado que, segundo ele, acabara depois de uma traição da ex mulher. Por isso, esse assunto - traição, terceiras, quartas e quintas pessoas - era muito difícil pra ele, impossível de lidar.

Depois de 2 meses de namoro, ele resolveu reformar a casa dele para a gente morar junto. Tudo muito rápido para o meu gosto... E, não tendo para onde ir durante a reforma, fez de um jeito que ficou na minha casa. Nessa altura, as coisas estavam tomando uma forma que eu não sabia muito se era isso que queria. Fora que tenho uma filha que mora comigo e, no meu ponto de vista, as coisas não se resolvem assim. Comecei a me sentir acuada, sem saída. Não podia pensar diferente que já virava motivo de horas de conversa sobre o relacionamento...

Um dia, fomos levar minha filha até a casa de uma amiga e, quando o pai da menina veio receber minha filha na porta, ele me elogiou. Disse que eu estava linda. Foi o suficiente para o descontrole. Não em público, mas comigo. Meu namorado teve um surto e chegou a chutar a comida. Depois disso, foram mais duas vezes de descontrole. Em ambas ele mexeu no meu celular, viu mensagens de um primo e um amigo, obviamente distorceu o que estava escrito e teve mais dois episódios agressivos e violentos. Claro que, assim que o acesso de raiva passava, e ele voltava para a realidade, percebia que tinha ido longe demais e me dava presentes, para se desculpar. Fazia tudo pra mim, é verdade. Eu quase não podia fazer minhas coisas, de tanto que ele queria "me ajudar".

Bom, depois do terceiro surto, fiquei uns 20 dias em completo estado de choque. Chorava muito, morria de medo de qualquer coisa, não queria voltar pra casa com minha filha. Vivia na minha mãe. Tinha medo de tudo o que ele pudesse fazer. Tinha medo dele pegar a faca durante a madrugada a acabar com a minha vida. Aliás, ele me disse algo assim: como dormíamos juntos, eu precisava entender o grau de confiança que tínhamos um no outro. Porque, na verdade, um podia matar o outro durante a noite. Geeeeeeeeeeeeeente, como assim?! Nunca havia passado um tipo de coisa assim na minha cabeça. Nunca! Claro que não se pode matar ninguém. Nem dormindo, nem acordado, nem de jeito nenhum.

O pavor começou a tomar conta de mim. Mesmo porque, ele mesmo me disse que não tinha boa disposição, que eu precisava saber que havia um monstro dentro dele e que ele rezava todos os dias de manhã para não ser o dia que ele, o monstro, ia sair... Mas era pra eu não ter medo nem ir embora... Meu Deus!! Pra mim, coisas como essas que ele dizia eram alertas. Porque ele sabe do que é capaz.

No total, foram 5 meses: os primeiros 2 e seu comportamento social não só aceitável, mas admirável. Depois, os próximos e últimos 3 meses, quando mostrou seu lado violento e agressivo, quando já havia manipulado toda a situação, estava hospedado na minha casa e eu não tinha para onde ir. Ele até me colocava contra a parede para que eu colocasse meu status de casada nas redes sociais. Pra todo mundo achar que eu estava casada com ele, mesmo sem estar. Consegui não alterar.

No fim, Deus me deu força , coragem e consegui, por email, pedir que se retirasse da minha casa. Uma semana depois, rompi o relacionamento. Nunca mais nos vimos. Nem nos veremos. Porque eu tenho plena consciência que é assim que começa. Não cheguei a apanhar, mas foi porque não deu tempo. Estou sozinha desde então, há quase 6 meses, e é assim que eu quero continuar. Não tenho o menor interesse em me aproximar de ninguém e não sei se volto a querer um dia. Quero cuidar de mim, da minha filha, da minha vida. E queria poder ajudar mulheres que passaram e ainda passam por isso. Esse projeto é lindo e merece ser exposto para o mundo!! Todo sucesso, é o que eu desejo!

"Muitas vezes ele me fez acreditar que a culpa era minha, e eu acabava aceitando para não ter mais outras discussões"
Anônima

4 de dezembro de 2013

 

Eu fui agredida por 2 anos pelo meu ex namorado. Tudo começou na comemoração do dia das mães, quando nós ainda tínhamos 4 meses de namoro. Eu havia pedido para ele segurar a porta do banheiro pra mim, porque não trancava e eu estava com medo de que alguém abrisse. E o tio dele abriu, e eu sai do banheiro envergonhada na frente da família dele. O tio então disse para ele "você não tem a responsabilidade nem de cuidar de uma porta". Então ele começou a me ofender, a me xingar, e quando chegamos em casa ele me agrediu, tirou meu pulso do lugar, fiquei com algumas marcas pelo corpo, não sabia se aquilo mesmo tinha acontecido comigo.

Dias se passaram e ele me fez acreditar que não faria novamente. Mas fez dois meses depois, e assim o intervalo das agressões foi diminuindo gradativamente. Eu sempre o perdoava, acreditando em uma mudança. Eu contava pros outros e ele brigava comigo, dizia pra eu não contar pra ninguém, porque ninguém precisava ficar sabendo da nossa vida.

E assim eu fui vivendo, acreditando que ele fosse mudar. Às vezes eu contava das agressões, outras vezes eu as guardava só pra mim. Minha mãe sentia que algo acontecia comigo, mas muitas das vezes eu chorava e não contava nada, dizia que apenas estava triste com a vida. Eu não conseguia por um ponto final naquela relação, pois muitas das vezes ele me fez acreditar que a culpa era minha, e eu acabava aceitando para não ter mais outras discussões.

Eu vivia com medo, andava na rua com medo de encontrar alguém, porque se ele me visse com alguém ele iria fazer escândalo e eu tinha medo que isso acontecesse. Ele me fez acreditar que minhas amigas que me defendiam não prestavam, que não eram "boas influências". E assim eu acabei vivendo num mundo que era só dele. Foi horrível, vivi tantas coisas, tantas agressões na mão dele - ele já chegou a me deixar sem blusa, toda marcada, no meio da BR. Eu não sabia o que fazer da minha vida.

Mas aos poucos eu comecei a me convencer de que aquilo não era vida pra mim, que eu tinha que sair disso o quanto antes, e fui me afastando, me desapegando, me desiludindo, e não acreditava mais nas suas mentiras. Comecei a deixar de amá-lo, e hoje sou outra pessoa, alguem renovada, com sorriso no rosto. Converso com todo mundo, encontro minhas amigas e amigos nos lugares e sento pra convesar sem receio de que algo vá me acontecer. Hoje eu me sinto linda e amada pelos meus amigos e familiares. Eu me libertei da garra de um monstro!

"Hoje estou lutando para não cair nessa de violência"
Anônima

11 de dezembro de 2013

 

Conheci o feminismo há pouco tempo, ao contrário do machismo, que sempre esteve bem ao meu lado. Tenho uma tia que sempre apanhou do agora ex-marido. Nas últimas vezes, pensamos que ele iria matá-la e minha irmã foi até a casa deles e trouxe consigo o revolver dele para esconder na minha casa.

Minha mãe deixou o pai de minha irmã quando ele chegou quebrando tudo em casa no meio da madrugada, mandando-a fazer macarrão (que nem em casa tinha). Ela saiu de casa com a roupa do corpo com minha irmã.

Meu cunhado viu nossa vizinha ser espancada no meio da rua e entrou rindo, informando que o vizinho estava 'descendo o pau' na mulher dele.

Minha outra irmã apareceu com o braço roxo. Minha mãe me perguntou se eu sabia se o marido dela batia nela. Eu disse que não sabia. Chorei depois, por saber que essa é um possibilidade, já que ele é super machista.

Hoje, estou lutando para não cair nessa de violência. Física, psicológica. E também para libertar aqueles que estão ao meu lado. Que eu conheço, sim, que existem, sim. E muitos. Muitas.

"Conte, não guarde, não sofra"
Renata

12 de dezembro de 2013

 

Comecei a namorar muito cedo. Esse relacionamento durou 4 anos. Hoje tenho a consciência de que de alguma forma ele dava sinais de que era violento, às vezes era agressivo com a mãe, outras vezes com a irmã. Ele me via como um objeto e às vezes eu tinha medo dele, mas era muito nova e nada sabia da vida.

O tempo foi passando e eu observando tudo ao meu redor, suas atitudes, seu machismo e a forma como me tratava. Até o dia em que conheci uma outra pessoa e vi que a vida poderia ser diferente, mais colorida... Enfim, terminei esse relacionamento achando que estaria liberta dele. Ele não aceitou o fim da relação, como poderia ser rejeitado por uma garota de 17 anos? Começaram os telefonemas e perseguições, até o dia em que ele foi me buscar na escola. Conversamos por umas 2 horas e ele tentou de todas as formas me convencer de que seria melhor pra mim, "mais bonzinho". Não acreditei em nenhuma daquelas promessas e me mantive firme na decisão de ficar cada vez mais longe dele. Ele então, num impulso de loucura, tentou dar fim a minha vida por estrangulamento, mas felizmente fui salva por dois anjos da guarda enviados por Deus.

Passei anos da minha vida com medo de reencontrá-lo e, durante muito tempo, algumas palavras permaneceram na minha memória: "se você não for minha, não será de mais ninguém".

 

Se não tivesse dado fim a essa história e se permanecesse na relação de boca fechada, não poderia ter escrito minha história aqui neste espaço, por isso conte, não guarde, não sofra, pois pode ter certeza de que não se arrependerá.

"Tenho medo, pavor, de me casar"
N.C.C.D.

27 de dezembro de 2013

 

Desde que nasci, fui criada em uma família machista e patriarcal. Mas o maior trauma foi ter apenas 5 anos de idade e ver seu pai levantar a mão pra minha mãe, e não conseguir entender o porquê de tudo aquilo, achar que a culpa era minha. 

Ainda bem que eu sou filha de uma vencedora que, depois de muito lutar, conseguiu se libertar e foi embora. Agradeço todos os dias a ela por ter me tirado de um verdadeiro inferno. Meu trauma permanece até os dias atuais. Tenho medo, pavor, de me casar e descobrir que a pessoa com quem estou disposta a passar uma vida é, infelizmente, um machista, que ousa dizer que nós mulheres somos inferiores.

E eu acredito em Deus, mas não um Deus como os homens dizem! Acredito em um Deus que fez homens e mulheres com capacidades e inteligência iguais, sem distinção!

"Tapa na cara com palavras e ameaças"
A.

28 de janeiro de 2014

 

Primeiramente gostaria de te agradecer pela iniciativa. Fico emocinada com esta titude. Eu mesma sempre tive vontade de fazer algo, mas não sei o que. No meu caso, eu não apanhei fisicamente, mas fui assediada moralmente, emocionalmente, psicologicamente e financeiramente. Fiquei um lixo.

E quando saí disso, apareceu um outro, que prometia ajudar mas me julgava pelo meu passado. Ajudou de forma torta, mas "ajudou". Também me xingava e dizia que eu era uma vagabunda, uma puta, sem classe, que sem ele eu não conseguiria mais ninguém, que eu deveria agradecer por estar com ele. Eu, que antes não concebia como mulheres ficavam nesta situação, que não aceitava o argumento "fico pelos meus filhos". Eu simplesmente pensava "coloque estas crianças na creche e vá trabalhar". O que eu não sabia é que o aspecto financeiro que estas mulheres tinham que enfrentar era apenas uma das barreiras a serem vencidas. Enfim... a historia é longa. Se tiver interesse me disponibilizo a uma conversa mais detalhada. Mais uma vez muito obrigada!!! Estou a disposição para o que eu puer ajudar, até mesmo de forma braçal para fazer o seu projeto caminhar e alcançar o maior número de pessoas possíveis.

"Solidarização"
R.

28 de janeiro de 2014

 

Queridas mulheres,

Li o relato de todas vocês e, muito emocionada, me lembrei da minha mãe e da minha irmã mais velha. Eu mesma nunca passei por isso, mas posso dizer que crescer vendo minha mãe apanhar do meu pai não foi a melhor infância que pude ter. Ele também batia na minha irmã mais velha e, para fugir daquela dor, ela se casou cedo demais, divorciou, casou novamente e foi agredida durante todo o tempo - quantas vezes eu, que sou a mais nova de cinco irmãos, tive que buscar minha irmã machucada nos hospitais...

Hoje percebo como somos pessoas incompletas em muitos aspectos. Eu fui em busca da minha felicidade, fui casada, divorciei, tenho uma filha de nove anos - eu e meu ex-marido somos mega-amigos, me casei novamente, tenho mais uma filha de um aninho. Aprendi muito com a vida sofrida da minha mãe e da minha irmã, aprendi também em terapia sobre a constelação familiar (trata-se de repetições), adquiri uma força que até hoje eu não explico.

Minhas queridas, nunca, nunca deixem de acreditar em vocês, na força que vocês têm, nada justifica uma agressão física ou moral - o respeito não deve existir somente para o homem ou para a mulher, o respeito deve existir para o humano. Quando alguém disser que a culpa é de vocês, antes de acreditar nestas pessoas ouçam o coração: que pessoa merece ser tratada como um objeto ou como um erro na vida do outro?! Ninguém.

Recebam meu abraço e saibam que, mesmo sem conhecê-las, torço por cada uma! Não desista de você, não desista da sua felicidade! Parabéns ao projeto! Paz, Prosperidade e Vitória a todos!

"Foram alguns dos piores momentos que vivi"
G.

28 de janeiro de 2014

 

Comecei a namorar com o fulano pela primeira vez em 2002, mas não aguentava tanta imaturidade e acabei optando por terminar. Segui minha vida, conheci diversas pessoas, porém ainda estava solteira, e no ano de 2005 resolvi dar mais uma chance a ele - uma pessoa super grossa, ignorante.

(...)

Anos se passaram, além de muitas vezes ter apanhado, ficado com braço engessado e etc, ele tentou me matar com faca, dizia que ia me matar direto. Meus pais sempre acreditavam no que ele dizia. Conversamos e ele disse que mudaria, que não iria fazer mais. Resolvemos ser pais - sim engravidei - e continuou, apanhei grávida. Quando ganhei meu filho, achei que ele respeitaria a criança, mas nem isso. Ele quase me matou porque cortei o cabelo dele errado, sendo que não sou cabeleireira. Ele ameaçava me matar quando viajávamos, eu já não ia mais sozinha, já não gostava, nem amava, empurrava com a barriga. Porém em 2011 cansei, e joguei tudo pro alto, mandei ele seguir o caminho dele, que ele tinha arrancado um pessoa feliz, pois entrei em depressão quando ainda era casada com ele.

Hoje tenho sequelas de tudo isso, porém conheci uma pessoa maravilhosa, que esta comigo há 3 anos, me deu uma linda bebê de presente, e hoje sou a mulher mais feliz do mundo, e muito, mas muito bem amada, respeitada, e tratada....

E aquele fulano diz que me ama, mas não quero mais ele nem revestido de ouro...

"Acreditava que aconteceria apenas com os outros"
F.

28 de janeiro de 2014

 

Essa relação - se assim posso classificar, já que uma relação é uma via de mão dupla, onde há companheirismo, amor e, principalmente, RESPEITO - durou 2 meses. Pouco, à vista do outro, mas foi tão intensa que pareceram anos... Já no inicio, vi alguns sinais de que algo estava "estranho" mas, como assim? Um cara bonito, simpático, bem intencionado e ainda por cima, queria ficar comigo? Eu estava no céu... Mal começamos a namorar, ele já me levou para conhecer os pais, queria logo conhecer os meus e já falava em casamento, filhos, amor. E fui me iludindo e me envolvendo.

Coisas que dizia que nunca iriam acontecer comigo, aconteceram. Ele era extremamente ciumento com tudo, meu celular ficava no silencioso, me afastei de amigos, deixei de fazer coisas (rotineiras até). Começou a implicar com tudo, meu emprego (para ele era o pior do mundo, sendo que ele nem tinha um emprego), com o lugar onde eu morava (sendo que ele morava com os pais), com meu jeito de ser, de falar, de agir, tudo para ele estava errado e eu me culpava e acreditava que a verdade estava com ele. Poxa, ele me amava, e tudo que falava era para meu melhor, não é? Eu fazia tudo por ele e nada por mim, mas acreditava que estava feliz.

As agressões verbais começaram logo no início, quando ele era contrariado por qualquer motivo. Me machucavam tanto, magoavam tanto, me feriam, mas depois ele se desculpava e dizia para não abandoná-lo e que eu não encontraria alguém que me amasse mais que ele. Com o tempo, as discussões foram piorando, ele alterava a voz, gritava, cuspia, batia na parede e chegava até a se bater. Eu me calava e chorava. Lágrimas e mais lágrimas, e a culpa daquilo tudo era eu (ele dizia), porque eu não sorria, não demostrava amor a ele, não argumentava durante as brigas.

Houve uma briga na casa dos pais dele, antes do natal, porque consegui dizer um "não" a ele - nessa ocasião ele me mandou embora, sendo que eram 23h, não tinha para onde ir, ele jogou a minha mala em cima de mim e gritava palavras, insultos e me agrediu fisicamente (foram 3 socos nas costas - para uns, parece não ser nada, mas ficou na alma para mim). A família dele nada fez (depois descobri que aquilo era um comportamento "normal" dele). Me senti humilhada e com medo, mas ele pediu desculpas, disse que nunca mais iria acontecer, que me amava, para não abandoná-lo e eu fiquei.

Mas a situação só foi piorando, mais insultos, mais gritos, até o dia em que ele me abandonou em um lugar ermo. Claro, ele me pediu desculpas e todo o discurso anterior, mas eu não queria mais, e ele ainda me fazia sentir como culpada de tudo. No dia do meu aniversário, eu estava muito triste, ele veio e me tratou como um príncipe. Até que, no dia seguinte , tudo aconteceu novamente, mas na casa dos meus pais. Ele gritava, socava, porque eu disse que não gostava mais dele como antes, que ele estava acabando com meu sentimento. Entrei no carro com ele, para que meus pais não vissem aquela situação e quase morri. Ele dirigiu loucamente, batendo na minha perna, me xingando, palavras, gritos e eu de olhos fechados e chorava. Ele me largou na minha casa e foi embora. Sentimento de alivio e abandono.

Estou tendo ajuda de amigos, que não me julgam por ter vivido aquilo, o que me sustenta e acalenta meu coração. Claro que outros julgaram, condenaram e a maioria não sabe (como meus pais), pela vergonha de ter sido agredida, ter ficado e sustentado aquela "relação". A agressão psicológica não deixa marcas no corpo, mas na alma. Hoje tenho alguns traumas e tento cuidar de mim, tento ver por quê fiquei, por quê me submeti àquilo. E vejo que foi por medo de ficar sozinha, do abandono, da falta de amor próprio. Ainda dói e vai doer por um tempo, mas meus olhos conseguem enxergar tudo na vida de outra forma. Espero que após a tempestade, venha o arco íris......

"O medo do escândalo na família deixa este homem impune"
G.C.

28 de janeiro de 2014

 

Eu convivi com alguém que batia muito em todas as companheira que ele arranjava. A que mais me chocou foi uma moça em quem ele bateu tanto, que ela foi parar no hospital com hemorragia. Os médicos perguntaram se ela era garota de programa pra estar num quadro tão grave - foi quando ela explicou que tinha sido espancada pelo marido e depois estuprada, por isso a hemorragia no seu úteroFoi então que ela criou coragem e foi embora pra um lugar que eu não sei, literalmente fugiu dele.

Esse mesmo homem, um monstro, me molestou sexualmente, e hoje age como se nada tivesse acontecido. A vergonha e o medo do escândalo na família deixam este homem impune, pois ele é nada mais, nada menos, do que meu irmão de criação. 

Porém, cada um, um dia receberá aquilo que merece e acredito veementemente na justiça de Deus e um dia ele pagará por todos os crimes que cometeu.

 

É muito revoltante!"
J.

28 de janeiro de 2014

 

Eu fui criada num lar de muita paz e respeito. Nunca presenciei violência dentro da minha casa e nem na minha família. A primeira vez que me deparei com uma situação de violência doméstica me deixou nauseada. Fui visitar uma mulher que tinha dado a luz recentemente. Quando entrei no quarto, fiquei chocada. Ela estava cheia de hematomas. Eu tinha 17 anos. Não sabia o que dizer ou fazer. Me lembro dela dizendo: "eu mereço...sou muito bocuda...desrespeitei ele..." Até hoje eles são casados. Não sei se alguma coisa mudou. É muito revoltante!!! Espero que este projeto restaure muitas vidas.

 

"Falava que eu era burra, dissimulada, vagabunda.."
A.

28 de janeiro de 2014

 

Sou assistente social e fui vitima de violência em 2012, do meu ex – companheiro. Convivi com este homem há um ano e dois meses. Nessa época não tinha condições alguma de sair sozinha e até mesmo de trabalhar, andava assustada e com muito medo das ameaças de morte, até pelas mentiras criadas por ele. Por meses andava sem dormir e com os nervos abalados por causa da pressão psicológica. Este homem, que é engenheiro civil, já fez denuncia sem propósito ao conselho de S. Social e ao conselho tutelar, alegando que eu maltratava e agredia o filho dele de 15 anos. No entanto, nunca fui uma pessoa ruim, dissimulada e nunca fui capaz de fazer mal algum ao filho desse engenheiro, e sempre cuidei dele como se fosse o meu filho de verdade e gerado por mim. Sabia que sou mãe! E tenho um filho de 23 anos que é estudante de Direito. Deixei de trabalhar em uma cidade do interior porque este homem também trabalha nesta mesma cidade e ando com medo das agressões verbais e físicas e até das ameaças que ele anda falando e escrevendo. E com isso via que esta complicado trabalhar na mesma cidade que ele trabalha. Confesso que fiquei sem rumo, assustada até quando o telefone toca e alguém chama na porta de minha casa.

Falava que eu era burra, dissimulada, infantil, incapaz, fraca, desgraçada, vagabunda, prostituta, negrinha do asfalto, que estava sendo analisado por ele o tempo todo e outros palavrões de baixo nível. Nesta época fiquei sem trabalhar e sem poder sair de casa sozinha mais pelos traumas psicológico que vivenciei! Foi complicado e levei meses para apagar da minha memória os momentos de terrou que vivi!

Atendia casos de violência doméstica, e a maioria eram mulheres vitimas de todo tipo de agressão causada por ex-companheiros. E vejo que quem mais sabe da dor, do medo e da vergonha, é quem passou por isso... E pode contar a minha história de terror ao mundo ! Estarei à disposição para combater e ajudar a vencer essa luta, sendo mais uma mulher vítima de covardia e violência. 

"Violência psicológica também é crime e deixa marcas terríveis!"
Dora

28 de janeiro de 2014

 

Por 10 anos vivi um casamento de abusos e agressões. No começo foram agressões físicas, mas quando dei parte dele na delegacia, ele começou a me agredir verbalmente. Foram anos de agressão psicológica, que quase me enlouqueceram. As pessoas acham que agressão verbal e ameaças não são violência, mas são! Criei coragem e me separei, mudei de estado, de vida e hoje quase não falo mais com ele, que se diz arrependido e jura que vai mudar. Mas agora é tarde!

Mulheres, eu sei o quanto é difícil, especialmente quando a gente tem filhos, mas sempre existe uma saída, ninguém merece ser humilhado e viver de migalhas! Ele não vai mudar, não importa o que você faça, essa é a natureza dele!

Espero que este movimento se dissemine e que muitas mulheres que sofreram ou sofrem agressões como eu, possam encontrar apoio! Parabéns pela iniciativa!

"Ele virou meu mundo"
NMMR

28 de janeiro de 2014

 

Há 5 anos me envolvi com um amigo de infância. Nós ficamos juntos durante 8 meses e meio. No começo, ele me tratava bem, era afetuoso. Mas, como ele fazia faculdade na época e eu fazia cursinho, nossos pais não aprovaram o namoro. Ele entrou na paranóia que todos queriam nos separar. A princípio não dei a mínima para a paranóia e, ao invés de ficar apreensiva, achei bonito, porque era um sinal de que ele gostava de mim. Ledo engano, eu era apenas POSSE.

Nos primeiros meses de namoro, nos demos bem. No quinto mês, ele me deferiu 3 tapas no rosto (não ficou marca). Me bateu após uma discussão com sua mãe, pois ela descobriu que ele não estava frequentando as aulas e corria o risco de ser jubilado. Após me bater, disse que eu era muito "faceira" e a culpa era minha, se ele tivesse ficado por lá, teria estudado e não sofreria o risco de ser jubilado. Fiquei indignada, chocada e triste. Depois ele me consolou e falou que não ia mais acontecer, disse se eu tivesse engravidado há 3 meses isso não teria acontecido. Só para constar: eu não queria engravidar e não queria ser mãe aos 19 anos.

Os meses foram passando, ele tinha uma banda e foi ao um show sem mim (ele costumava me levar com frequência aos shows). Fiquei sabendo através de um amigo em comum que ele flertou uma menina. Me fiz de superior, e disse ao meu amigo que ele enxergou coisas no dia. Mas, no fundo sabia. Só não queria acreditar, porque fazia tudo por ele e para ele. Ele virou meu mundo.

Comentei com a mãe dele a respeito das agressões e, por incrível que pareça, ela o defendeu. Defendeu um moleque mimado, imprudente, playboy e sem limites. Também, cresceu em um lar patriarcal e machista. Foi a criança mais esperada da família. Me surpreendi, porque ela era mãe de uma mulher também. A mãe dele enchia a boca para chamar as ex namoradas do filho de... vagabas! (Não consigo compreender, quando uma mulher xinga outra mulher). O mais irônico da história: quando ele me apresentou, ela me chamava de "biscate". Mas depois que os problemas com drogas apareceram, eu virei a solução dos problemas do filho.

O tempo foi passando e as coisas piorando. Se eu conversasse com um amigo, ele vinha me xingar e queria bater no meu amigo. Quando fui prestar vestibular, ele foi atrás de uma ex namorada. Ao voltar do vestibular, o encontrei na rua caído e bêbado. O levei para casa e cuidei dele. Seus pais não quiseram vê-lo bêbado. O meu colega me contou que ele foi atrás da ex, chorei no dia e, ao chegar na casa dele, vi os históricos do MSN e mensagens do celular. Não acreditei no que estava vendo. Em uma discussão, falei que sabia da Gabriela. Aproveitei e debochei que ele foi menosprezado por ela ao correr atrás da ex namorada. E fui embora. Nós terminamos, mas depois de dois dias reatamos - infelizmente! Um mês depois, nós brigamos e ele me jogou na parede, puxou a minha mão e jogou a aliança no chão. Sai andando como se nada tivesse acontecido. Depois ele pediu desculpas.

Com o tempo, foi ficada cada vez mais violento e acabava com a minha auto estima. Passei na faculdade e sumi. Não terminei, apenas arrumei minhas malas e fui embora. Ele foi jubilado, e voltei a morar com meus pais. Ele aparecia todos os dias na casa dos meus pais, me ligava todos os dias (não atendia). A mãe dele me ligou chorando dizendo que eu poderia fazer com que ele largasse as drogas, que fui leviana e inconsequente, que ele estava mal por minha causa. Ela disse que teria comprado um apartamento para eu ir morar com ele. Um absurdo. Passei 6 meses sem voltar para minha cidade e, quando ia, saía correndo às pressas. Era prisioneira da minha própria cidade. Ele me seguiu durante 1 ano e meio. Me arrependi de não ter feito denúncia, mas meus pais não me deram respaldo e todos me culpavam porque ele "caiu nas drogas por minhas causa". Só não terminei com ele antes porque tinha medo disso. Ele sempre dizia se eu o deixasse, ele se mataria, ou me mataria. Em uma conversa com a minha mãe, ele afirmou que se eu não ficasse com ele, não ficaria com mais ninguém.

"Durante anos a vi com olhos roxos, boca ensaguentada, levando socos no rosto, pontapés na barriga.."
Anônima

28 de janeiro de 2014

 

Se me perguntarem qual a lembrança que tenho da minha infância relacionada a meu pai, vou responder que ele era dúbio, que nele habitava um herói e um monstro. E essa "mágica" se realizava com alguns goles de bebida. A primeira transformação advinda desse feitiço está em minha mente desde os meus 3 anos de idade, quando tive a infelicidade de assistir à agressão gratuita feita por ele à minha mãe. Desde então, percebi que alguma coisa NELES e ENTRE ELES estava errada. E esse erro aconteceu durante 23 anos. Sim, 23 anos foi o tempo que minha mãe aceitou, estupidamente, conviver com um homem não menos estúpido que sua atitude passiva. Se ela lhe sorrisse muito, ele a agredia, se ela sorrisse pouco, ele a agredia, se ela não o cumprimentasse, ele a agredia, se ela fizesse comida demais.. se fizesse de menos.. se lavasse demais.. se lavasse de menos.. Enfim, em sua cabeça transtornada pelo álcool, qualquer coisa lhe servia de estímulo para descontar em nela, sei lá o que, que ele sentisse. E durante anos a vi com olhos roxos, boca ensaguentada, levando socos no rosto, pontapés na barriga, panelas arremessadas em cima dela, enquanto a comida, que voava pela cozinha, parecia ter mais liberdade que ela. No entanto, algumas lágrimas, pedidos de desculpas e flores, funcionavam como uma borracha em sua mente, enquanto seu corpo se preparava para a próxima surra. E ela, por "amor" - digo "amor" por que, em minha concepção de amor, tais atitudes não se encaixam - o perdoava, esperando assim, o replay de todo esse filme.

Mas graças a Deus, filhos crescem e, em determinadas situações, se tornam pais de seus pais. Sendo assim, decidi encerrar de vez esse filme, quando para mim escolhi que aquela seria a última cena que eu iria assistir. E foi! Pela última vez vi meu pai espancando minha mãe, observei-o sendo o animal mais agressivo que já tinha visto em minha vida, quando com um chute violentamente forte a derrubou contra a porta, o que a fez cair quase desmaiada, e achando aquilo insuficiente, a puxou pelos cabelos, arrancando um chumaço de sua cabeça, enquanto dava a seus olhos as cores: roxo, vermelho e verde. Levantei minha amada mãe, cuidei dela e a forcei a ir à Delegacia prestar queixa, e ao Fórum para iniciar o processo de separação. Deste dia em diante, ela conseguiu a tão sonhada e temida liberdade, felicidade e independência.

"Quando chega na audiência, você passa a ser considerada pior que o agressor"
S.

29 de janeiro de 2014

 

As histórias de violência se repetem, como se fosse o mesmo agressor e a mesma vítima. Vimos e ouvimos na mídia: denuncie! Mas me pergunto: para ser humilhada, desacreditada e difamada? Pois é assim que me sinto com relação à Lei Maria da Penha.

Fui agredida durante quatro anos, e acreditava que havia chance de mudança, mas não houve. Vivenciei agressão mais de uma vez quando estava grávida de um mês, e meu ex-namorado dizia que era mentira. Fui para minha casa e ele teve a ousadia de invadi-la e cometer um estupro. Testemunha é dificil e, nisso, você passa por situções variadas.

Quando chega na audiência, você passa a ser considerada pior que o agressor, e a coisa fica mais feia ainda quando a Defensora te confunde com outra pessoa, e afirma que você fez algo que ela não se engana. Eu tenho pavor quando chego na audiência e sei que vou me deparar com " A advogada do bicho ruim" - para não falar outra coisa.

Hoje, minha filha tem sete meses, e me considero uma viciada em tratamento. Conto cada dia como "por hoje não". Não posso me considerar completamente bem, mas desejo ficar melhor, pois atitudes podem ser repensadas, alguma coisas perdoadas - porém palavras que magoam e ofendem jamais serão esquecidas. Hoje tenho novos objetivos, e a princípio me matriculei no curso de Direito.

Fiquei contente em poder contribuir com o Entre Nós. Mulheres sei que é difícil mas tenham Fé . Acreditem, a mudança depende de nós!

"É hora de seguir em frente, confiando nas portas que se abrirão"
Geikla Godinho

29 de janeiro de 2014

 

Quando protelamos uma decisão, desprezando nosso grito interno, estamos abrindo as portas para um abismo que tem como premissa a aceitação de um processo corrosivo. Dentro da alma: bramidos sôfregos, tortura, alienação, dor, pranto e a perda de si mesmo. No intento de aparar arestas e entender situações impostas, nos tornamos prisioneiros dos nossos algozes e das atrocidades praticadas por eles; condição deprimente, que pode anular a vontade de ser, estar e fazer.

Se policiem. Relações doentes, na maioria das vezes, despertam males psicológicos e sentimentos de menos valia, porque são permeadas por violações e agressões. É um suicido lento da história que levamos anos para construir, portanto – VIGIAI! Fiquem atentas às relações que as circundam - se ela for atribulada, custosa, penosa, é hora de colocar em prática o desapego e dar um fim ao sofrimento. É hora de seguir em frente, confiando nas portas que se abrirão. É hora de ter esperança, fé. É hora de se reinventar e deixar o DESTINO pintar o seu cotidiano com novas cores.

Não tenha medo, pois o medo é uma casa onde ninguém vai, o medo é uma força que não nos deixa andar, que paralisa. Tenha confiança em si mesma, saia do calabouço e só leve o que realmente for importante para o seu aprendizado e crescimento pessoal. Leve os sentimentos enobrecedores dispensados, leve a capacidade de amar e de se doar por inteiro. Por favor não perca a crença no perdão.

Acreditem - novas relações são plenamente possíveis e não devemos contaminá-las com desconfianças e impurezas, resquícios das relações passadas. E se não for pedir muito, sempre que der, ore pelas pessoas que fizeram uso da sua inocência, da sua generosidade e da pureza dos seus sentimentos, tenha compaixão - isso ajuda a calar os soluços do espírito. E para finalizar siga em frente, fazendo uso do bom senso, sempre.

"Você é minha, você me pertence"
Nagma

29 de janeiro de 2014

 

Como esquecer essa frase? Foram mais de vinte anos. Quando me seduziu tinha quatorze anos - me ensinou a beber, me engravidou e me fez abortar. Não tinha noção de nada, criança boba, inocente, que via naquele homem bem mais velho o meu porto seguro, o pai involuntário. Me tirou de casa ainda menina, e passei a ser sua propriedade. Tive bons momentos confesso, mais tarde nasceram as gêmeas e meu filho. Vida difícil de submissão a esse homem que nunca soube demonstrar amor - rude, sem afeto, incapaz de demonstrar carinho espiritual. Sempre me dizia que eu nunca seria algo na vida, deteriorizava tudo que eu tentava fazer, dizendo "você não consegue, você é burra e ignorante, só presta pra foder"!

Mas afeto e amor não se constroem em castelos de areia. Fui amadurecendo e conquistando tudo que, segundo ele, era impossível pra mim. Cresci espiritualmente, profissionalmente e descobri ser possível viver sem dependência física, sexual, espiritual, e principalmente financeira. Isso, para o homem machista e patriarcal, é demais pra uma "reles mulher" porque, segundo ele "lugar de mulher é cozinhando, cuidando da casa, dos filhos e sendo escrava sexual". Inúmeras vezes tive que suportar relações sexuais sem consentimento - se não fizer por bem vai na marra mesmo! É impressionante como pra ele isso é normal, sem carinho, sem afeto, não importa, o que importa é a realização do ato sexual. 

Pois bem, consegui adquirir o famoso transtorno bipolar, depressão e alcoolismo, e vontade de não viver mais desse jeito - inúmeras vezes se tem vontade de tirar a própria vida. Mas existe um Deus que não nos abandona e foi nele que encontrei forças pra superar tudo. Certo dia chegamos ao ápice do fim. O ciúmes todo tempo atormentava esse homem. Agora eu já não poderia trabalhar, estudar e nem sair de casa, mas veio então a Internet - ainda não sei se pra me libertar ou piorar ainda mais minha vida. Foi assim que sofri minha primeira agressão física. Ser esbofeteada, arrastada pelos cabelos, abusada sexualmente, humilhada, dói não só na carne. A alma adoece e aquele resquício de chama do amor se esvai de vez. Pra ele foram apenas uns tapinhas mercidos, pois assim "aprende a respeitar"!

Cinco dias depois da agressão, decidi que não suportaria mais isso na minha vida. Essa decisão tem me causado muita dor até agora, mas é preciso tomar uma decisão, fazer uma escolha! Aceitação da parte dele, jamais. "Você é minha, você me pertence". "Homem nenhum toca em você!". Ele quer provar para todos que sou a mulher infiel que não merece ter os filhos, que não merece nada do que construímos juntos, tenta denegrir minha imagem a qualquer custo.

Não tive coragem de denunciá-lo no momento da agressão. Agora sei o que muitas mulheres sentem quando o machão ameaça e diz "chama a polícia, vai!". Não fiz isso por ele, fiz pelos meus filhos e por mim. Sei que, no fundo, muitas de nós sentimos pena daquele que um dia amamos. Sei que não posso mais viver assim, mesmo que ele diga que vai mudar. Ainda sempre aparece o sentimento de que eu fui a culpada por tudo isso e que, se eu fiz essa escolha, agora tenho que suportar as consequências...

Olha, não quero ser tratada como coitadinha, só quero que muita gente que acha a minha decisão de me separar errada, apenas saiba que, quando o amor termina, não devemos procurar culpados e ficar julgando quem está certo ou errado. Tentem ao menos respeitar esse momento, pois a qualquer momento isso pode acontecer com você! Digo mais, quem passa por isso precisa SIM de apoio, espiritual, familiar e profissional para conseguir lidar com essa situação - pois muitas vezes pensamos novamente em sair de cena, sumir, desaparecer...

"Quando meu pai bebe, ele vira outra pessoa"
P.

29 de janeiro de 2014

 

Desde que me conheço por gente, meu pai faz uso abusivo de álcool e outras drogas. Sempre que ele chegava em casa bêbado, ele agredia a minha mãe de alguma forma. Verbal, psicológica ou fisicamente. Ele a xingava de várias coisas. Um dia meu pai ligou para nossos familiares, enquanto eu passava férias na casa da minha avó, dizendo que tinha matado a minha mãe. Felizmente aquilo foi apenas um delírio. Ele tentou esfaqueá-la, mas ela foi mais forte. O sangue na casa toda a que ele se referia era, na verdade, dele mesmo -ela mordeu seus braços e mãos até tirar pedaços e conseguiu fugir para a casa da vizinha. Minha mãe optou pela separação. Meu pai continuou fazendo as mesmas coisas.

Hoje tenho 22 anos, moro sozinha em outra cidade, estudo e trabalho. No ano retrasado, em um almoço de família, ele tentou me agredir fisicamente, com socos e tapas. Minha família me defendeu. Ele dizia: "você é minha, eu mando em você, você tem que fazer o que eu quiser, e tudo isso aqui é culpa sua", da mesma forma como ele falava com a minha mãe. Fiquei um ano e meio sem me comunicar com ele. O reencontrei um dia antes do natal, não aconteceu nada. E a minha família sempre diz: "seu pai é um homem bom, mas ele vira outra pessoa quando bebe". Eu nunca mais vou conseguir me relacionar normalmente com ele, tenho medo do que ele pode fazer comigo. 

Gostaria que esse relato pudesse ser publicado, eu represento mais uma geração de violência e dominação.

"Cresci aprendendo que não valho nada"
A.

29 de janeiro de 2014

 

Cresci ouvindo da minha mãe que mulher não presta, é burra, um saco, que não dá pra ter paciência com mulher e tudo o mais. Cresci com ela me ensinando a conseguir tudo sendo sexy. Cresci, então, aprendendo que não valho nada, a não ser pelo sexo que tenho, pela promessa de prazer que posso proporcionar. Cresci aprendendo a ser um objeto. Cresci tanto que, um dia, percebi o que sempre me incomodou e consegui entender a violência do discurso e suas consequências. Violência ensinada de mãe, para filha.

Hoje, ensino minha filha a ser um ser humano íntegro. Por favor, mulheres, não passem o machismo adiante.

"Ele vem pra bater nela, mas ela aprendeu a se defender. Imagina? Ter que aprender a se defender do próprio marido!"
Anônima

29 de janeiro de 2014

 

Não fui muito bem uma vítima. Tenho 18 anos. Minha mãe foi e ainda é. Eu me lembro mais ou menos, tinha uns 6 anos quando meu pai bateu na minha mãe pela primeira vez. Eu estava deitada no sofá, de costas, e só senti o baque dela batendo contra o sofá. Se aconteceu novamente não fiquei sabendo, até o ano de 2012. Comecei a acordar praticamente todas as noites com gritos da minha mãe, porque meu pai a estrangulava enquanto ela estava dormindo. No inicio foi um inferno. Durante esse ano, eu não passei mais de duas semanas na mesma casa, ia sempre morar com minha avó, mas minha mãe é fraca e sempre voltava para ele. Da última vez, eu disse "só saio de lá morta" e desde então ficamos presas nesse inferno. E eu fico presa junto. Ele já me pegou diversas vezes pelo pescoço, já espancou tanto a minha mãe que ela teve que ficar dias presa em casa sem ver ninguém além do meu namorado (que sabe de tudo), porque tinha um olho roxo, um corte no rosto...

Agora ele dificilmente bebe, mas usa droga todos os dias. Chega em casa, xinga minha mãe de todos os nomes possíveis, judia dela, já rasgou diversos shorts a acusando de estar "molhada" porque estava com seu "macho". Ele vem pra bater nela mas ela aprendeu a se defender. Imagina? Ter que aprender a se defender do próprio marido! Ela usava uma tesoura e agora ele está cheio de cortes ou marca deles no corpo. Minha mãe decidiu parar de usar a tesoura, porque acha que vai matar ele - mas se matasse, quem iria ligar? Todos (ênfase no todos!) detestam ele. Ele é mesquinho, nojento, machista, egoísta, ignorante. Trata minha mãe como empregada.

Hoje ela usa o controle da tv e bate nele e ele está cheio de roxos regularmente. E eu só sairei daqui se for pra outra cidade, senão serão ainda muitos anos presa nessa casa conhecida por mim como inferno. E só fico pela minha mãe, porque ela precisa de alguém BOM do lado dela. Não ligo de postarem isso, sinceramente. Obrigada pela atenção, só meu namorado sabe disso, não posso contar pra mais ninguém. É bom desabafar...

"Quatro anos de agressões físicas e psicológicas"
Anônima

30 de janeiro de 2014

 

Minha história é longa e complicada, mas não me canso de contar, pois quero que sirva de exemplo a outras, que elas não sofram o que sofri. Não desejo isso nem para inimigos... Logo depois de terminar um longo relacionamento com o pai da minha filha mais velha, me sentia muito mal com os efeitos que a gestação causou no meu corpo - e o término foi porque ele também não gostou e me traiu. Logo comecei a sair com outras pessoas, até que conheci alguém. Não sei qual a razão, mas eu não sentia atração por ele e meus instintos me pediam para correr para longe. Mas como eu já estava cansada de ouvir o coração e me dar mal, resolvi ir pela lógica e tentar gostar de quem gostava de mim. Depois de um tempo, me apeguei e permaneci com ele. Eu deveria ter notado quem ele era assim que ele começou a espalhar para as pessoas que havia me tirado da rua, como se eu fosse uma prostituta. Mas acabei adotando os pensamentos machistas dele, de que errei ao sair com certas pessoas e que eu deveria ter permanecido dentro de casa, puritana e esperando o príncipe encantado bater na minha porta.

Depois de um tempo (curto, por sinal), ele decidiu que queria ser pai, e que eu deveria lhe dar um filho - pois eu havia dado um filho para meu ex, que não merecia - e o sonho dele era ser pai. Ele fez de tudo até me convencer de que seria melhor assim e que um bebê iria torná-lo uma pessoa melhor, pois ele foi abandonado pelos pais e tinha muito amor reprimido dentro dele. E eu, querendo de alguma forma viver uma boa experiência na maternidade, cedi, e engravidei. Não consegui ficar feliz com a gravidez, não éramos casados, eu morava na casa dos meus avós, com minha mãe, irmãos e filha. Não era certo aquilo!

A primeira agressão ocorreu nesse período, não me lembro se foi pouco antes da gravidez ou no início dela (deletei da minha memória, involuntariamente). Logo depois, as lágrimas, o pedido de desculpas, e a promessa de mudança (mal sabia eu que isso seria rotina dali em diante). Houveram algumas agressões depois disso. Uma vez levei um murro na boca e o corte sangrou muito. Em outra, levei tanta pancada em várias partes do corpo que fiquei cheia de hematomas - daí ele correu na farmácia para comprar spray mentolado, para aliviar minha dor. Depois disso, houve outra briga, e ele espirrou todo esse spray no meu olho. Um dia, eu estava voltando do trabalho (que ele insistiu para que eu largasse mais tarde) e ele cismou que eu tinha alguém dentro da empresa (mesmo tendo câmeras em todo lugar e sendo extremamente proibido beijar pessoas lá dentro) e, no meio de uma praça, rasgou minha camiseta toda. Precisou me emprestar a dele para eu voltar vestida pra casa.

Com 5 meses de gravidez, eu não queria transar, pois estava sem vontade, sentindo os incômodos da gestação, mas ele insistia. Estávamos numa praça conversando sobre isso, até que anoiteceu, e ali mesmo ele forçou uma relação sexual. Me senti ferida fisicamente e emocionalmente. Nunca pensei nisso como um estupro, porque mesmo que eu não tenha me defendido, acreditei que por ter "permitido", ele fez o correto, afinal, se estávamos juntos, ele tinha "direitos" sobre meu corpo. Passamos a gravidez toda brigando demais. Com 36 semanas, ele me fez andar quilômetros, e rápido. Forcei muito, senti dores, o tampão mucoso saiu todinho naquele dia. Não deu outra, uma semana depois, meu bebê nasceu.

Toda vez que ele fazia isso, ele dizia que mudaria, que eu tivesse paciência com ele. Prometeu ir no psicólogo, mas nunca foi. Nesse tempo todo, ele demonstrava de todas as formas possíveis, porém não explícitas, que era melhor que eu, e eu não era nada sem ele. Ele dizia o quanto eu tinha sorte dele estar comigo, e que poderia ter todas as mulheres que quisesse, mas escolheu a mim. Eu sentia que não teria oportunidade melhor, que apesar de tudo ele me amava, e que um dia nos livraríamos da violência e seríamos felizes. Como eu era sortuda! Só que não... Durante a gestação, eu cansei de só apanhar, e passei a agredir também. Nossas brigas eram corporais e eu sempre me feria muito mais do que ele, é claro. Depois que meu filho nasceu, ele demonstrou grande vontade de mudar, e por um tempo, não nos agredimos. Daí um novo problema surgiu.

Aproximadamente um ano depois, quando achei que finalmente as coisas tinham se ajeitado, ele se juntou com amigos que bebiam muito, e passou a fazer o mesmo. Eu odiava o fato dele beber! Além de perder todo o tempo livre fazendo isso, ele começou a falhar como pai, deixando faltar as coisas pro nosso filho, gastando todo o dinheiro com bebidas. Nisso, ele brigou com os familiares dele, e pediu abrigo na minha casa. Juro que eu não queria! Imagina morando comigo, o que ele não faria??? Mas me senti na obrigação de permitir, afinal, não poderia deixar o pai do meu filho, meu namorado, morando na rua...

Ele dominou meu espaço. Chegava bêbado no meio da noite e me ligava para abrir a porta, como eu abria quando ele chegava do trabalho - mas era completamente diferente ele me acordar para abrir a porta por estar chegando do trabalho ou atrapalhar meu sono para abrir a porta por estar chegando da bebedeira. Eu passei a dividir a cama com minha filha, e ele dormia em uma cama sozinho. Eu odiava isso. Eu e minha filha perdemos todo o conforto, e meu quarto não parava mais arrumado. Desisti de manter a organização. Passamos a brigar muito e as agressões voltaram piores. Ele nunca me deixou de olho roxo, mas o resto do meu corpo vivia cheio de hematomas. Ele fazia de caso pensado, em locais que eu poderia esconder com a roupa. Um dia, ele chegou em casa bêbado e viu nosso filho chorando (como era de costume na hora de dormir) e bateu nele tão forte que marcou a perna. Eu fui pra cima dele, sem ver nada na minha frente. Quando dei por mim, a família toda estava batendo nele, meu filho aos berros com medo, e a polícia batendo na nossa porta.

Ele foi embora da minha casa, e eu achei que estaria livre dele pra sempre, mas ele quis conversar depois disso. Novamente as lágrimas, o pedido de perdão, a promessa de mudança. Deixei claro que aquela seria a última vez e, se ele não mudasse, eu terminaria e não teria volta. Eu sabia que aconteceria novamente, mas precisava ganhar tempo e, assim que viesse a próxima mancada, eu teria argumento para terminar e ele teria de aceitar calado. Ele passou a morar em um cômodo/banheiro, e queria levar eu e as crianças para morarmos com ele. Consegui resistir e não fui, mas ele queria que eu passasse uma parte da semana com ele. Eu ia, mas não tinha vontade de estar lá.

Nessa época conheci outra pessoa pela internet e me apaixonei, mesmo sem nunca ter visto pessoalmente. Ele desconfiava disso, queria me proibir de ter redes sociais, mas eu não cedi. Não conseguiria contar quantas brigas feias tivemos por isso, mas eu encontrei nesse sentimento a força que precisava para sair dessa vida, e tentar outra vez, com a pessoa que eu realmente queria. Em uma discussão, fui ameaçada com uma faca, e isso me deu um motivo ainda maior para sair disso: se permanecesse, ele ia me matar! A faca passou perto de mim, e atravessou a tábua de carne, que estava ao meu lado. Terminei. Ele não levou a sério e insistiu muito para voltar. Conheci o homem por quem me apaixonei e ficamos juntos. Meu ex simulou um suicídio por telefone e depois veio me acusar de não me importar se era verdadeiro. Me agrediu na rua, me perseguiu, ameaçou, foi na minha casa fazer escândalo várias vezes.

Um dia, junto com meu novo namorado, decidi que era hora de denunciar. Pedi para que ele não falasse que estávamos juntos para não ser tratada com preconceito e assim foi feito. Chegamos lá, ele se disse um amigo, e pedi pra registrar B.O. Depois de mostrar diversos SMS com ameaças, marcas de agressões, etc, o delegado me disse: "Pra que você vai denunciar ele? Você sabe que amanhã ou depois vocês vão estar juntos outra vez!" Eu falei que não aconteceria, e ele riu de mim. Depois de registrar o BO de má vontade, ele falou assim: "Você deveria arrumar um namorado que tem arma, pra te proteger!" Meu namorado respondeu: "É pra isso que ela está aqui, porque esse é o papel de vocês!". Eu não falei nada, por ter ficado abismada com o pouco caso com que fui tratada, fiquei pasma, sem respostas. Me ofereceram abrigo mas recusei, por ter pra onde ir. Depois disseram que eu comparecesse tal dia para prestar mais esclarecimentos, e que ele receberia uma intimação no endereço que passei, da família dele.

Meu ex descobriu tudo, sei lá como, e me ameaçou de morte se eu voltasse lá. Claro que não voltei. Ele ameaçou meus filhos, disse que buscaria minha filha na escola e sumiria com ela. Ela passou um mês sem ir pra escola. Meu filho não saía com ele nessa época, pois ele dizia que ia levá-lo de mim para sempre. Depois disso, me descobri grávida do meu ex, e acreditei que, sabendo disso, ele me deixaria em paz - mas foi pior ainda, ele ficou mais louco e obcecado. Por fim, perdi o bebê de tanto passar nervoso (fui proibida de me estressar ao apresentar sangramento, mas era impossível ficar calma).

Por fim, depois de toda essa desgraça que me fez deitar numa cama e não querer levantar nem para cuidar dos meus filhos, em que eu me dopava com álcool e antidepressivos, eu decidi levantar e viver. Cansei de ficar ali esperando a morte certa! Eu ia lutar, eu ia viver! Voltei a ter vontade de viver minha maternidade de forma plena, meu novo romance, e minha vida, afinal, eu merecia ser feliz! Ele foi desencanando aos poucos, e depois de alguns meses, me deixou em paz... Hoje ele está em um novo relacionamento, onde sei, pelo que ele conta para minha mãe (que faz o intermédio entre ele e nosso filho) que não mudou nada em questão de agressão contra a companheira.

Eu ainda trago comigo traços desse passado, já agredi meu companheiro em momentos de raiva, mas estou lutando contra isso, tentando fechar minhas feridas abertas, para que os fantasmas do passado parem de me assombrar. Hoje em dia, já consigo andar na rua sem achar que estou sendo seguida, e não sinto pânico se o encontro. Meu filho frequenta a psicóloga há 2 anos, devido as consequências disso tudo, que foram percebidas só depois dele crescer um pouco.

"Sobre o Projeto"
Diane Valdez

30 de janeiro de 2014

 

Ao chegar na página, ver este espaço - tão cuidadoso e bonito - e ler o que elas contaram, fico pensando no quanto precisamos destes espaços ainda. Oxalá que um dia precisaremos de espaços que possamos contar sobre nós com menos dor, com mais risos, com mais conquistas e menos tristezas. As escritas trazem uma realidade rodeada de brutalidade masculina, construída há tempos pelos pais, irmãos, namorados, maridos... Por outro lado, os desabafos trazem um basta feito de diferentes formas. 

"É como se livrar de um droga, um dia de cada vez"
Anônima

3 de fevereiro de 2014

 

Lindo este projeto... Ler os depoimentos amenizou o drama que estou passando. Me relacionei por quase 2 anos com uma pessoa que eu, ainda hoje, amo - ou penso que isso é amor - mesmo com toda a relação violenta que vivemos.

Ele terminou comigo há 2 meses e isso me desestabilizou completamente. Racionalmente, sei que teria que agradecê-lo por ter terminado, já que não tive essa coragem. Mas não consigo entender que vínculo afetivo é esse que estabeleci com ele, que não me permite me desvencilhar dessa relação... Sofri muitas agressões dele, psicológicas, físicas... Era um cara que só estava bem se me via no desequilíbrio. Então era ciúmes, controle a todo momento, xingamentos... Até que na nossa primeira viagem juntos, ele me agrediu, me empurrou, apertou meus pulsos, machucou minha boca. No dia seguinte me pediu desculpas e retomamos.

Após esse primeiro episódio, seguiram-se mais outros de agressão, sendo que em alguns deles eu me defendi - sim, me defendi sendo violenta também. Isso me desestabilizou mais ainda. A desculpa que ele dava para as agressões eram sempre voltadas para mim: "se eu perdi o controle, foi porque você me provocou". E era assim, brigas horríveis com agressões, e depois pedidos de desculpas e reconciliação... Até quando a violência se tornou pública e ele achou por bem terminarmos, para que as coisas não piorassem.

Nunca contei a ninguém. Tentava amenizar com pomadas os hematomas ou inventando que tinha me machucado, caído... Eu não acredito que permiti que as coisas chegassem a esse ponto e ainda sentir essa falta terrível que sinto dele...

Há uns dias ainda acreditava na possibilidade de mudança, de retorno... Após terminarmos, ele procurou não se desvincular, mandando mensagens carinhosas... E eu acreditei. Nos encontramos algumas vezes e era sempre muito bom. Até que vi ele com outra pessoa, um dia depois de estarmos juntos, de termos trocado juras de amor. E isso acabou comigo mais uma vez mas, se precisava achar um limite para esse "amor", encontrei neste momento. Mas ainda DÓI muito. 

Às vezes, penso nas pessoas que dizem "se apanha e continua junto, é porque gosta de apanhar". As pessoas não conseguem pensar no contexto emocional e cultural em que vivemos, e que acaba nos perimitindo viver situações degradantes em nome de um suposto amor, da vontade de ter uma família. Tudo imposição da sociedade. Estou procurando essas respostas com psicoterapia, terapia alternativa, bons amigos, exercício físico... Preciso cuidar muito de mim ainda pra entender a situação e tentar me manter longe. É um longo caminho, mas que tenho certeza que irá me fortalecer. Hoje estou há 3 dias sem falar com ele... sim, é como se livrar de um droga, um dia de cada vez.

Força pra todas nós!

"Meninas, não aceitem menos do que amor e respeito"
Anônima

8 de março de 2014

 

A gente nunca acha que vai passar por isso... Até que um dia acontece. Começa com "pequenos" insultos no meio de uma discussão, que depois evoluem para xingamentos, gritos e ameaças por motivos banais - um aparelho fora da tomada, um atraso ao sair do trabalho, um pagamento que você esqueceu de fazer. Eu já acordava sendo chamada de "vaca", "filha da puta", "vagabunda", enquanto arrumava minha bebê para passar o dia na creche. Olhava para o relógio e eram 8h da manhã. Eu ainda ia encarar um dia inteiro de trabalho, em dois empregos diferentes.

Durante 3 anos foram inúmeras situações de agressão e descontrole, quase sempre presenciadas pelas minhas filhas, ou pela babá. Em algumas dessas situações, eu estava com a bebê no colo, amamentando, dando a papinha, colocando-a para dormir. Em outras, estava com ela no carro, no banco de trás. Mas em todas as situações, inclusive aquelas que nos colocaram em risco, a "responsabilidade" era sempre minha ou das crianças. Passei a ter medo de deixá-las com ele. Achava que a qualquer momento alguma coisa iria disparar aquele comportamento violento. Uma disputa pelo canal de TV, alguma malcriação, a pizza que chegou e elas tiveram preguiça de descer para buscar. A essa altura, minha filha mais velha já era chamada de "imprestável" - ela ia fazer 15 anos.

No dia em que a bebê nasceu, quando normalmente a família inteira se confraterniza ao redor da mãe e da criança, eu presenciei mais um surto. O motivo: a criança chorava de fome e eu ainda não tinha leite (o leite materno normalmente demora a "descer" após uma cesariana). Ouvi xingamentos de toda natureza e o enxoval foi jogado no chão, peça por peça. "São essas porcarias de roupa que você comprou que estão incomodando minha filha!". Eu estava imóvel, ainda sob o efeito do pós-operatório. Uma enfermeira tentou ajudar, trouxe uma mamadeira de leite. Eu recusei, e passei a noite em claro, chorando. Durante os meses seguintes eram comuns piadas com o meu corpo, a barriga inchada, os seios diferentes em decorrência da amamentação. "Ninguém nunca vai te querer assim".

Além de responsabilizar a mim e as crianças, eram comum culpar o trabalho pelas situações de "estresse". "Me tire dessa situação. Precisamos nos mudar". Não tive dúvidas de que o meu papel era apoiá-lo. Pedi demissão, consegui emprego em outro Estado e fui na frente, enquanto ele agilizava sua transferência. Um mês depois, ouvi pelo telefone: "Não vou mais. Você já criou duas filhas sozinha, agora vai criar três. E não fique me ligando. Estou levando outra pessoa para jantar e você está sendo inconveniente". Dois meses depois, um SMS me informa que a transferência do trabalho dele, afinal, saiu. Pensei que teria alguma parceria pelo menos para ajudar com as crianças, mas me enganei de novo. Uma noite, quando eu me arrumava para sair, começou uma discussão: "Sai da minha frente ou vou te encher de porrada". Achei que já tinha suportado demais, silenciado demais...

Criei coragem, fui à Delegacia da Mulher e relatei tudo. Em 24h o juiz determinou medidas protetivas. A audiência está marcada para o final de maio. No meio de todo esse processo, minhas filhas me viram secar. Tive depressão, síndrome do pânico, anorexia nervosa. Escrevi tantas mensagens agressivas que renderiam um livro. Porque a agressão adoece o nosso espírito, e nossa dor transborda, não cabe em nós. Por fim, abri mão do melhor emprego que já consegui e voltei para a minha cidade. Mas ainda hoje, passados alguns meses, não posso ver um carro da marca x que sinto um frio por dentro. Não consigo ouvir a voz ou sequer ver uma foto. Parece que me dão socos no estômago, fico sem ar, tudo dói.

Não tenho religião, mas sei que Deus é o senhor de tudo. E todas as noites eu agradeço a Ele pela coragem de romper com essa relação destrutiva. Mesmo que para isso esteja recomeçando do zero, ganhando menos, cuidando sozinha de 3 crianças. Sei que demorei demais, mas quando se está no meio do furacão, a vista fica turva, é difícil enxergar até o óbvio. Mas meu mantra atualmente é "tenho que seguir em frente", por mim e, principalmente, por elas. Que minhas meninas jamais aceitem um décimo do que viram, que jamais perdoem uma gota do que presenciaram. Se eu puder deixar para elas e para outras mulheres um exemplo de força e coragem, já terei cumprido a minha missão. Meninas, não aceitem menos do que amor e respeito. Feliz Dia da Mulher.

"Carta ao estuprador"
A.

30 de março de 2014

 

Fui vítima e estupro e hoje tenho um blog que fala sofre violência de gênero. Ainda não consegui contar a minha história no blog, mas coloquei uma carta que escrevi ao estuprador. Talvez interesse a outras mulheres, ajudando a se livrar um pouco do sentimento de culpa que carregamos:

 

"Caro estuprador. Caro não. Desprezível estuprador,

É com profunda satisfação que lhe informo que hoje, mais do nunca, sinto-me plenamente feliz. Vivo muito bem com minha sexualidade e que a compartilho maravilhosamente com meu parceiro. De você, lembro muito pouco, quase nada, talvez a altura e que era quase magro. Você não tem cara, cheiro ou gosto, você não é ninguém. Da noite em que você tentou me roubar a subjetividade, lembro constantemente. Relembro dela, pois me ajudou a perceber o quanto sou forte. Mas sobretudo, me fez compreender que existem pessoas, como você, que ainda não aprenderam a lidar com sua sexualidade.

Eu sei que você tem dificuldade pra ter prazer, que não sabe se relacionar sexualmente com uma mulher, que não sabe lidar com seus sentimentos. Também sei que você morre de medo. Tem medo de ser pego. Pois é, eu também sei da sua misoginia - por conta dela você usa o estupro pra nos castigar. Você só tem coragem pra afrontar mulher. Na hora de assumir que tem tesão por homens você se acovarda.

Sei que é impossível que você possa ter uma ereção normal, sexo natural e prazeroso. Você precisa tomar o sexo à força, só assim você sente seu sangue ferver, e nós sabemos que isso é raro. Na verdade o que te excita não é o sexo feminino, é a violência. Você não me escolheu, foi o acaso. Você não se excitou comigo, com meu corpo, o que te excitou foi a raiva que sente de mim (mulher) e a possibilidade de me fazer sofrer.

Você me atacou querendo violar meu corpo, minha mente e minha alma. Você queria se perpetuar em mim, impedir que eu voltasse a ter sexo, sentir prazer e gostar de sexo. Você achava que, depois de você, eu viveria como um cão acuado, com medo de todos os homens. É com grande deleite que te informo: você não faz parte de mim e nem povoa meus pesadelos. Eu não vivo com medo e gosto de homem.

Quer saber? Eu tenho pena de você, enquanto você passa noites acordado com medo de ser reconhecido, encontrado, pego, enquanto perde o sono elaborando planos de ataque, planos de fuga, planos e mais planos, eu durmo tranquilamente. E várias vezes por semana, antes de dormir o sono dos anjos, faço amor com meu companheiro e com ele sinto muito prazer. Depois relaxamos agarradinhos, numa cumplicidade que você jamais irá conhecer. Um lembrete: antes dele houve outros homens.

Saiba também que nunca pensei em você enquanto me entrego ao meu parceiro, e eu me entrego sem reservas, sem medos e sem limites. Lamento muito que você seja essa pessoa desprezível que é. Só não esqueça que, por mais planos que faça, dos cuidados que tome, um dia você vai acabar sendo pego, pois todo criminoso comete erros. Pode acreditar que a sua cela vai estar repleta de marmanjos cheios de amor pra dar e eles vão te receber calorosamente. Você estará tremendo como uma menininha largada num covil.

Mas, não se preocupe, com o tempo você acostuma com a sodomia e vai chegar o momento em que vai desejá-la ardentemente. E aí, finalmente você estará realizado com sua sexualidade."

"Somos de família influente e, nessas horas, a influência para abafar é maior"
Camila

31 de março de 2014

 

“Alô, pai, eu acho que matei sua filha”.

Foi assim que meu único irmão, um ano mais velho, avisou nosso pai da surra que me deu. Eu não quis emprestar meu carro pra ele, que saiu descontrolado do banheiro e me surrou até achar que quase morri. Não sei nem nunca saberei se ele estava são, mas senti a força do descontrole. Eu, nos meus 1,63m e 70kg, não tive como conter os 1,80m e 100kg que me esmurravam, chutavam, mordiam. Tive a cabeça batida na pérgula da piscina, os braços mordidos e torcidos, as costas arrastadas no chão. Nos seios, os chutes criaram nódulos que levaram anos para sumir. Os roxos, os hematomas, sempre foram e serão o de menos.

Denunciei na delegacia, mesmo sob ameaça do meu pai de ser expulsa de casa, pois não convinha fazer “um absurdo desses”. Nunca recuei, mas a Justiça também nunca foi atrás. Não sei se pelo fato dele ser advogado - influências, nunca se sabe né? Somos de família influente e, nessas horas, a influência para abafar é maior. Tenho certeza de que foi isso.

Nunca ouvi um pedido de desculpas, meu pai nunca perguntou se os seios ficaram saudáveis, só tive o apoio de tias que me foram mães. Nunca sarou, nunca passou, nunca senti menos dor. E essa dor, a psicológica, nunca passou e mesmo depois de 5 anos, sinto que nunca passará. E ainda assim, sobre eu não falar com meu irmão até hoje, papai sempre me escreve "às vezes não perdoamos besteiras na vida".

​© 2013 ValérieMesquita Fotografia